Era um dia ensolarado no movimentado Largo dos doctors. Nas calçadas e nos corredores suntuosos da autarquia estadual, o clima não era de serenidade clínica, mas de um puro e efervescente melodrama coronelista.
Odorico Paraguaçu, encarnado ali com todo o dom da oratória empolada na figura do gestor Paulo César Kohlrausch, caminhava a passos largos, ajeitando o terno e discursando para os cantos.
— Meus concidadãos, correligionários e caríssimos doutores! — vociferava Paulo César, gesticulando para o nada. — Não nos deixemos levar pela demagogia esquerdistóide ou pelos difamadores de plantão! O que fazemos nesta nobilíssima instituição é a mais pura desburocratização patriótica do bem público! O resto é mero “pragmatismo oposicionista”!
O Conselho, que outrora ostentava a aura de tribunal da ética e da probidade, havia sucumbido ao espírito pitoresco de Sucupira. A política de favorecimentos, portarias extravagantes e jogos de comadre transformara os gabinetes em verdadeiro palco de teatro de revista.
Para cada problema institucional, Paulo César tinha uma solução bem ao estilo do lendário prefeito sucupirano:
— Para que licitação com “complicômetro”, se temos a lídimo-devotada Maciel Engenharia? — bradava ele, ao assinar a Solicitação nº 498. — Uma jovem engenheira de fibra, por mim pessoalmente nomeada em Santa Clara do Sul e com atestado assinado pela minha própria e ilibada mão! Isenção total e impessoalidade acima de tudo!
Há muitos segredos naquele Conselho, viu?



