Lula e Flávio traçam rotas distintas até o voto feminino

A disputa pelo voto feminino ganhou espaço central na corrida presidencial. Mulheres representam 52,8% do eleitorado brasileiro, mas continuam sub-representadas entre os candidatos: são 34,8% das candidaturas neste ano. Nesse cenário, o presidente Lula (PT) e o senador Flávio (PL-RJ), nomes da disputa mais bem colocados, têm propostas diferentes para um eleitorado que reúne mais da metade dos votos do país.

Os programas de governo registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram duas estratégias: Lula aposta na ampliação de políticas públicas, na proteção contra a violência, na redução da jornada de trabalho, na igualdade salarial e na divisão social do cuidado; Flávio concentra a agenda no empreendedorismo, na autonomia financeira, no acesso a crédito, na capacitação, em creches e em mecanismos tecnológicos de proteção.

Em 2022, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres dedicaram, em média, 21,3 horas por semana a afazeres domésticos e cuidados de pessoas — entre os homens foram 11,7 horas. Quando se soma o trabalho remunerado ao não remunerado, a carga total também é maior entre elas: 54,4 horas semanais para as mulheres, 52,1 horas para os homens.

Os dados ajudam a explicar por que o tema da jornada ganhou espaço nos programas eleitorais. A proposta de Lula é reduzir a jornada para 40 horas semanais, sem redução salarial, e avançar no fim da escala 6 x 1. O programa também estabelece o compromisso de ampliar a equivalência remuneratória entre mulheres e homens e fortalecer a aplicação da Lei da Igualdade Salarial — em 2024, eles receberam, em média, 27,2% mais que elas considerando o rendimento de todos os trabalhos, segundo o IBGE.

Já Flávio aborda a questão pelo viés da autonomia econômica. Propõe ampliar o acesso delas ao mercado de trabalho, facilitar a abertura de pequenos negócios e integrar qualificação, vagas de emprego e intermediação de mão de obra.

O programa de Flávio dedica um capítulo às mulheres. Entre as propostas está a Escola Brasil por Elas, que pretende oferecer cursos gratuitos em áreas como inteligência artificial, programação, marketing digital, finanças e idiomas, com conexão com vagas de emprego e trilhas para o empreendedorismo.

Na segurança, a diferença de abordagem entre eles também é evidente. Lula coloca o combate ao feminicídio e à violência doméstica entre os principais eixos de sua política para as mulheres. O programa de governo mantém o Pacto Brasil Contra o Feminicídio e prevê a conclusão de 30 Casas da Mulher Brasileira e 15 Centros de Referência da Mulher Brasileira em construção, além da expansão de equipamentos de proteção e monitoramento de agressores.

Flávio propõe a Denúncia Facilitada para integrar o Ligue 180, delegacias on-line, botão de emergência e centrais de monitoramento em uma plataforma. O programa ainda sugere um sistema nacional de avaliação de risco e o uso de tornozeleiras eletrônicas para agressores submetidos a medidas protetivas de maior risco.

Na largada oficial da campanha, em 16 de agosto, Lula falou diretamente às mulheres. “Mulheres desse país, não abaixem a cabeça nunca”, afirmou. Disse que os homens precisam aprender a tratar as mulheres “como companheiras e não como serviçais“. O discurso foi acompanhado por uma defesa do enfrentamento ao feminicídio.